Entrevista com Marcos Sá Correa

Marcos Sá Correa é formado em história, mas descobriu no jornalismo seu grande talento e na fotografia uma imensa paixão. Jornalista há mais de trinta anos, já passou por inúmeros veículos de comunicação, dentre eles a Revista Veja, Época, o Jornal do Brasil e o Jornal O Dia, porém foi no site No.com que ele se tornou popular no país. Atualmente é colunista das Revistas Piauí e Istoé, escreve artigos para diversos jornais e dirige a agência de notícias on-line O ECO, veículo em que trata questões ambientais de forma jornalística, literária e até poética.

O fotógrafo, escritor (Marcos tem quatro livros publicados) e jornalista é um dos palestrantes do ENEAC 2008 e trará como tema para o evento: Pegada ambiental-Todo mundo tem. Marcos Sá Correa se diz um contrafóbico, gostaria de ter um pé menor, acha um de seus livros uma temeridade e acredita que a web é o verdadeiro palco dos jornalistas.

Entenda agora estas afirmações e conheça um pouco mais de Marcos Sá Correa.

O tema da sua palestra no ENEAC é “pegada ambiental-todo mundo tem”. O que seria esta pegada ambiental? Como definiria a sua?

Literalmente, é isso mesmo. Tudo o que fazemos, inclusive respirar, emite carbono. A revista Focus, da BBC até já se arriscou a calcular quantas toneladas de emissões a humanidade pouparia, se prendesse uma em três respirações. Não me lembro do número. Mas era impressionante. Ambientalmente, viver é nosso pecado original. E, como ninguém é inocente debaixo do sol, todo mundo tem que se preocupar com isso numa hora em que nossa espécie está batendo nos seis bilhões e meio de indivíduos. Como tomo alguns cuidados para não gastar muito além do estritamente necessário, minha pegada deve ser média. Mas eu me orgulharia muito de ter, neste sentido, pé pequeno.

Você é um dos jornalistas que mais conhece sobre meio ambiente no Brasil. De que forma o jornalismo pode auxiliar na preservação do meio ambiente?

A única coisa que jornalista sabe fazer – e mal – é evitar que erros de qualquer natureza sejam escondidos da opinião pública como segredos. E é isso que procuro fazer no meio ambiente. Mais ou menos como tentava denunciar tortura, no tempo do regime militar.

Sua formação é em História. Como surgiu o interesse no jornalismo?

Mal entrei na faculdade, pus os pés pela primeira vez numa redação. E não saí mais.  Primeiro, como freelancer, vendendo para a revista Manchete uma reportagem relativamente longa, de seis ou sete páginas, com texto e fotos sobre a passagem do pintor Alberto da Veiga Guignard por um pequeno hotel do parque de Itatiaia, onde ele morou durante algum tempo, antes que seu quadro Noite de S. João, comprado pelo museu de arte moderna de Nova York, mudasse definitivamente de bitola sua carreira. Aos dezessete ou dezoito anos, fui fotógrafo do Jornal do Brasil. Em 1968, entrei para a primeira equipe da revista Veja, como repórter. E ainda não aprendi a parar.

O que te dá mais prazer, o jornalismo, a fotografia ou escrever livros?

A fotografia, de longe. Há anos eu me prometo que, antes que a idade me torne definitivamente incapaz de andar por aí com o equipamento às costas, um longo sabático em que só farei fotografia.

Há um tempo atrás você saiu de Revistas conceituadas como a Veja e a Época para escrever em um site (o No.). Por que a mudança? Você se sente mais livre escrevendo na web?

Porque acho que é isso que vai acontecer em pouco tempo com todos os jornalistas – de jornais, de revistas, de rádio ou TV – e quis me antecipar ao inevitável, até por temperamento. Sou o que os psicanalistas chamam de contrafóbico. Quando tenho medo de uma coisa, trato de experimentar para ver se o medo passa.

Quais são as vantagens e as desvantagens do jornalismo on-line?

A desvantagem é, por enquanto, a relativa desimportância, comparada com os meios já estabelecidos de comunicação de massa. A vantagem é que todo resto é melhor, a começar pelo contato direto e permanente com o leitor. A internet está para o jornalismo como o palco para ator. É a prova de fogo, em que ele sabe se vai ser vaiado ou aplaudido na hora em que está atuando.

Você escreveu a biografia do mais famoso arquiteto brasileiro, Oscar Niemeyer, como foi esta experiência?

Por fascínio. Conhecer Niemeyer foi um privilégio. Escrever daquele jeito sobre ele, uma temeridade. Aquele livro foi escrito em cerca de um mês. Acho que hoje eu levaria dez anos para botar na rua um livro sobre ele. Tem coisas na vida que a gente só faz por ignorância, como disse Orson Welles, explicando numa entrevista por que filmou Cidadão Kane.

Você circula por diversas áreas do jornalismo, ambiental, investigativo, literário, tradicional... Como consegue ser tão bem informado?

Não sou nem me considero bem informado. Não mesmo. O que tenho é uma bem informada consciência de minha sesquipedal ignorância, o que me faz cada vez mais apurar cada palavra que escrevo. Estou virando escravo do Google. Não tiro o dedo dele nem para escrever bilhete.

O que você pensa sobre o jornalismo brasileiro e como o vê daqui a dez anos?

Daqui a poucos anos, que talvez nem cheguem a dez, haverá jornalismo sem jornal. Pelo menos o jornal que embrulha diariamente notícia em papel. O resto será conseqüência desta avassaladora mudança. E quem sou eu para adivinhar tanta conseqüência.